sexta-feira, 11 de junho de 2010

Foi lá por 76...



Verdes anos... Foi no verão de 76 que descobri a Praia do Rosa.
Mesmo com a alma lavada de belas imagens (tinha recém voltado de uma trip pelo Nordeste), não pude deixar de me maravilhar com aqueles cenários de sonho.
O descampado verde descendo até a praia, as lagoas, o gemido do carro-de-boi...
Um lugar onde a luz elétrica ainda não havia chegado e a vida escorria ao ritmo lento da natureza. Foi pelas mãos da Idinha Dubin, bruxa de muitos sortilégios, que fui apresentado à Praia do Rosa e ao barraco de pesca que o Alemão Uda ocupava na pequena praia do Portinho. Um cafôfo sem mobília, na ocasião habitado por uma dúzia de malucos interessados apenas em comer marisco, fumar bomba e viver o vão delírio da sociedade alternativa. Um autêntico happening dos Anos 70.
Dormíamos todos juntos sobre acolchoados e sacos de dormir, mas – por incrível que pareça - sem muita sacanagem. O lance era curtir a natureza, surfar, jogar frescobol pelado na praia, correr morro atrás de cogumelo de zebu... Comer as gurias também, é claro, mas isso não era prioridade absoluta.
O Rosa era então um lugar praticamente virgem, apenas duas famílias de nativos habitavam a “concha da praia”, e por incrível que pareça havia muito menos árvores que hoje. As plantações de mandioca dominavam o cenário e proporcionavam visuais incríveis de qualquer ponto da praia. A interação com os “biquiras” era total, não havia este ranço que hoje permeia moradores “nativos” e “estrangeiros”. Pescadores artesanais e pequenos agricultores de subsistência, os nativos viviam quase na idade da pedra: não tinham luz elétrica, plantavam e moíam seu próprio café e comiam só peixe, farinha, banana e café.... vezenquando um ovinho pra engrossar. Nós fomos os responsáveis pela introdução da bolachinha recheada na Praia do Rosa, e este karma vamos carregar pelo resto da vida.
Com o passar do tempo, o engenho do Seu Dorvino e da Dona Ojena (hoje esquina da Fazenda Verde) tornou-se o “centro” da praia. Alguns de nós nos hospedávamos ali (era gostoso fazer amor sobre um carro de boi, tentando não fazer barulho), outros preferiam as barracas, mas todos davam uma passadinha para tomar um “aparadinho”, dar risada com os poeminhas da Dona Ojena ou ouvir o Zé Bettio no radinho do Seu Dorvino.
Muita gente acampava no pastinho da atual Fazenda (hoje dividida em Verde e Rosa), e quando inaugurei minha casa no alto do morro, no verão de 1981, dava para bem contar uma dezena de barraquinhas colorindo o descampado.
No começo dos 80 vários gaúchos já haviam construído suas casas – Homero, Denis, Lontra, Bebela - e a Dona Ludre já havia cometido o primeiro crime ambiental do Rosa, ao levantar casa no istmo que separa a Lagoa do Meio do mar.
As festas eram cada dia num lugar, comunitárias e abertas, e qualquer um podia participar se tivesse astral e mantivesse a compostura do salão. Tocava-se muito violão (de manhãzinhaaaaa), tomava cachaça de butiá, fumava erva boa e principalmente se sonhava muito, com um mundo de paz, harmonia e muito amor. Coisas de anos verdes, alimentados pelo doce pássaro da juventude.

Um comentário:

Alexandre Torrano disse...

A barraca 08, era a minha. hehe. Verdes Anos.